A Câmara dos Deputados protagonizou mais um capítulo lamentável da política brasileira entre a noite desta quarta (10) e a madrugada desta quinta (11). Em duas decisões que evidenciam pesos e medidas distintos, os parlamentares preservaram o mandato de Carla Zambelli (PL-SP) — presa na Itália desde julho, condenada por invadir o sistema do CNJ e por porte ilegal de arma — e, ao mesmo tempo, aprovaram a suspensão por seis meses do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ).

No caso de Zambelli, nem mesmo o relatório da CCJ que defendia sua cassação — apontando impedimento absoluto para exercer o mandato — foi suficiente para convencer o plenário. O resultado de 227 votos pela cassação ficou longe dos 257 necessários, garantindo que a deputada siga com mandato ativo apesar de não poder trabalhar, comparecer às sessões ou cumprir qualquer obrigação parlamentar. Um recado claro de que a Casa se dispõe a proteger seus aliados, mesmo diante de condenações gravíssimas.

Já Glauber, alvo de representação por quebra de decoro após briga com um integrante do MBL, teve a cassação retirada de pauta graças a um destaque do PSOL, mas não escapou da punição. Sua suspensão foi aprovada por ampla maioria — 318 a 141. A votação ocorreu um dia após o deputado ter sido retirado à força do plenário por policiais legislativos durante um protesto, episódio em que a TV Câmara cortou a transmissão e jornalistas foram impedidos de acompanhar os fatos, num duro ataque à transparência e ao trabalho da imprensa.

Enquanto Zambelli é blindada mesmo sem condições mínimas de exercer o cargo, Glauber é afastado por seis meses em meio a um processo marcado por excessos, tumulto e intervenção policial. A Câmara, que deveria ser guardiã da democracia, termina a semana exibindo seletividade política e um preocupante desprezo pelo próprio decoro que diz defender.

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